segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cláudio Manuel da Costa 
Destacou-se pela sua obra poética e pelo seu envolvimento na Inconfidência Mineira. Foi também advogado de prestígio, fazendeiro abastado, cidadão ilustre, pensador de mente aberta e amigo do Aleijadinho, a quem teria possibilitado o acesso às bibliotecas clandestinas que seriam mais tarde apreendidas aos Inconfidentes. 
Como poeta, transitou entre o Barroco - marca dos seus escritos de juventude, enquanto era estudante de Cânones na Universidade de Coimbra (1749) - e o arcadismo - a partir do seu contato com o iluminismo, que concebia práticas mais racionais nas belas-letras. 
Especula-se que tenha traduzido A Riqueza das Nações e a Teoria dos Sentimentos Morais, de Adam Smith, para o português. Há quem afirme ter tido ligações com os Illuminati, sociedade secreta de cunho iluminista criada na Baviera e que teria influenciado inúmeras revoluções. 

Biografia 
Filho de João Gonçalves da Costa, português ligado a mineração, e Teresa Ribeira de Alvarenga, mineira, nasceu no sítio da Vargem do Itacolomi, freguesia da vila do Ribeirão do Carmo, atual cidade de Mariana em Minas Gerais. 
Em 1749, aos vinte anos de idade, embarcou para Portugal, matriculando-se na Universidade de Coimbra, onde obteve o Bacharelato em Cânones. 
Entre 1753 e 1754, retornou ao Brasil, dedicando-se à advocacia em Vila Rica (atual Ouro Preto). Jurista culto e renomado à época, ali exerceu o cargo de procurador da Coroa, desembargador, e, por duas vezes, o de secretário de Estado. Por incumbência da Câmara de Ouro Preto elaborou a "Carta Topográfica de Vila Rica e seu termo" (1758). 
Por sua idade, boa lição clássica, fama de doutor e crédito de autor publicado, exerceu uma espécie de magistério entre os seus confrades em musa, maiores e menores, uma vez que todos lhe liam as suas obras e lhe escutavam os conselhos. Glauceste Saturnino (ou Glauceste Satúrnio), pseudônimo do autor, faz parte da transição do Barroco para o arcadismo. Seus sonetos herdaram a tradição de Camões. 
Foi, assim, uma das principais figuras da capitania. Aos sessenta anos de idade, teve uma participação colateral na Conjuração Mineira. Detido e, segundo alguns, apavorado com as consequências da acusação de réu de inconfidência, interrogado uma vez só, morreu em circunstâncias obscuras, em Vila Rica, no dia 4 de julho de 1789. Oficialmente, teria cometido suicídio por enforcamento na prisão. Em outra versão, estudiosos levantam a hipótese de ter sido assassinado no cárcere. 
Os registros da trajetória da vida de Cláudio revelam uma bem sucedida carreira no campo político, literário e profissional. Foi secretário de governo, poeta admirado até em Portugal e advogado dos principais negociantes da capitania no seu tempo. Acumulou ampla fortuna e sua casa em Vila Rica, era uma das melhores vivendas da capital. Sólida e construção que ainda lá está a desafiar o tempo. 
A memória de Cláudio Manuel da Costa, porém, não teve a mesma sorte. Até hoje paira sobre ele a suspeita de ter sido um miserável covarde que traiu os amigos e se suicidou na prisão. Outros negam até a própria relevância da sua participação na Inconfidência Mineira, pintando-o como um simples espectador privilegiado, amigo de Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, frequentadores assíduos dos saraus que ele promovia. 
Cláudio tentou, ele próprio, diminuir a relevância da sua participação na conspiração, mas estava apenas tentando reduzir o peso da sua culpa diante dos juízes da devassa. Os clássicos da historiografia da inconfidência mineira são unânimes em valorizar sua participação no movimento. Parece que ele era meio descrente com as chances militares da conspiração. Mas não deixou de influenciar no lado mais intelectualizado do movimento, especialmente no que diz respeito à construção do edifício jurídico projetado para a república que pretendiam implantar em Minas Gerais, no final do século XVIII. 

Emerson Vinhosa 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO.

CANTO VI
XXXVII

Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que às mais procede em gentileza,
Não vinha menos bela que irada,
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.

XXXVIII

"- Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos,que o ar consomem.
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco...
Ah que o corisco és tu...raio... penhasco?

(...)

XLI

Enfim, tens coração de ver-me aflita,
flutuar moribunda entre estas ondas;
nem o passado amor teu peito incita
A um ai somente com que aos meus respondas!
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
(Disse, vendo-o fugir), ah não te escondas!
Dispara sobre mim teu cruel raio..."
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.

XLII

Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo;
com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo,
-Ah! Diogo cruel! - disse com mágoa ,
E, sem mais vista ser, sorveu-se n'água.

ANÁLISE: O trecho do canto, segue a estrutura dos versos camonianos e da epopeia clássica, com fortes influências da mitologia grega. Nele é narrada a morte da Índia Moema, em uma descrição muito bela. De acordo com as características árcades, a índia reflete o ideal do bom selvagem iluminista. Faz-se uma sátira política à opressão portuguesa e a corrupção colonial. Este canto pertencente ao poema " CARAMURU", também faz um balanço da colonização em meio a uma descrição hiperbólica da natureza.
  Pedro Rodrigues.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

MORTE DE LINDOIA - José Basílio da Gama 

Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca com a vista, e treme de encontrá-la.
Entraram enfim na mais remota, e interna 
Parte de antigo bosque, escuro e negro,
Onde, ao pé duma lapa cavernosa, 
Cobre uma rouca fonte,que murmura,
Curva latada e jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste, 
Cansado de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha face na mão e a mão no tronco
Dum fúnebre cipreste, que espalhava 
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo 
Verde serpente, e lhe passeia e cinge 
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chama-lá e temem
Que desperte assustada e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme 
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode 
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia e fere 
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açoita o campo com a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao desperta-lá
Conhece, com que dor! No frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito. 
Os olhos, em que amor reinava, um dia, 
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes 
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto, 
E rompe em profundíssimos suspiros, 
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O aleio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido 
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante 
Um não sei quê de magoado, e triste, 
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!


Análise:
“A morte de Lindoia” é um trecho tirado de “Uruguai”, cujo autor é José Basílio da Gama. Trata-se de uma poesia épica, centrada no tema do descobrimento e colonização dos países da América latina. Esse trecho conta o caso da esposa do cacique da tribo, que após este ter sido assassinado, ela prefere morrer por amor à casar-se novamente. Podemos então, perceber no poema características árcades, como uma imensa riqueza de detalhes, exaltação da natureza e também da essência natural do homem.
É um belíssimo texto.
(O texto ficou desconfigurado por problemas no computador).

Maria Clara Menezes

domingo, 30 de outubro de 2016

Cláudio Manoel da Costa
Soneto: VIII

Este é o rio, a montanha é esta, 
Estes os troncos, estes os rochedos; 
São estes inda os mesmos arvoredos; 
Esta é a mesma rústica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta, 
Rio, montanha, troncos, e penedos; 
Que de amor nos suavíssimos enredos 
Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh quão lembrado estou de haver subido 
Aquele monte, e as vezes, que baixando 
Deixei do pranto o vale umedecido!

Tudo me está a memória retratando;
Que da mesma saudade o infame ruído
Vem as mortas espécies despertando.

Análise: O autor descreve a saudade que sente daquele lugar simples e calmo, exteriorizando suas emoções quando estava presente no mesmo. Além de mitificar o campo como lugar ideal para se viver em pleno século das luzes, já que o Arcadismo foi um período que aconteceu durante a ascensão do iluminismo. O soneto acima nos mostra a predominância do bucolismo e do pastoralismo, na qual o autor busca os valores da natureza e apresenta a simplicidade e a humildade de viver no campo. Nos da a idéia que o campo é uma espécie de redução do mundo. Apresenta uma linguagem de fácil compreensão, ao contrário do Barroco; procura descrever objetivamente o cenário situado; e sua descrição é indicativa de um lugar feliz. Também apresenta traços do Barroco, pois Cláudio Manoel foi um poeta de transição entre os períodos.

Pedro Henrique Soares

Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga 
Marília de Dirceu 
  Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,  
que viva de guardar alheio gado,  
de tosco trato, de expressões grosseiro,  
dos frios gelos e dos sóis queimado. 
Tenho próprio casal e nele assisto; 
dá-me vinho, legume, fruta, azeite; 
das brancas ovelhinhas tiro o leite  
e mais as finas lãs, de que me visto.      
Graças, Marília bela, graças à minha estrela!   
Eu vi o meu semblante numa fonte:  
dos anos inda não está cortado; 
os pastores que habitam este monte  
respeitam o poder do meu cajado. 
Com tal destreza toco a sanfoninha,  
que inveja até me tem o próprio Alceste:  
ao som dela concerto a voz celeste,  
nem canto letra que não seja minha.      
Graças, Marília bela,      
graças à minha estrela! 

Análise 
No poema o autor faz a exaltação da vida pastoril, campestre, no entendimento de que a felicidade e a beleza decorrem da vida no campo. É da convenção arcádica o poeta identificar-se artisticamente como pastor e identificar sua musa como pastora. No estribilho, o poeta manifesta-se satisfeito com o próprio destino: “Graças, Marília bela, / Graças à minha estrela”. É evidente o propósito de autovalorização : nos versos 11 e 12; na afirmação da juventude: nos versos 13 e 14; na alusão à virilidade; e na exaltação da sensibilidade artística: nos versos 15 e 16. 
Aluno: Emerson Vinhosa